Nos últimos tempos têm surgido notícias que referem que Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. À primeira vista, esta realidade pode parecer motivo de satisfação. Afinal, viver mais anos é, sem dúvida, uma conquista da humanidade.
Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante.
Estamos apenas a viver mais… ou estamos verdadeiramente a viver melhor?
Chegar aos 80, 90 ou até aos 100 anos é um privilégio. No entanto, o verdadeiro desafio é conseguir fazê-lo com autonomia, saúde, disposição, curiosidade, capacidade para caminhar, aprender, conviver, rir e continuar a desfrutar da vida.
Infelizmente, nem sempre é essa a realidade.
Muitas pessoas passam os últimos anos da sua vida dependentes de múltiplos medicamentos, com limitações físicas ou mentais, isolamento social ou dificuldades em realizar tarefas simples do dia a dia. A medicina evoluiu extraordinariamente e tem permitido prolongar a esperança média de vida, mas isso não significa necessariamente que se prolonguem, na mesma proporção, os anos vividos com qualidade.
É precisamente aqui que a ciência começou a fazer uma pergunta diferente.
Porque razão existem locais no mundo onde um número invulgar de pessoas chega aos 90 e aos 100 anos mantendo uma saúde, uma autonomia e uma alegria de viver muito acima da média?
Foi esta curiosidade que levou investigadores a estudar várias regiões do planeta onde a longevidade saudável parece acontecer com muito maior frequência. Algumas destas regiões ficaram conhecidas como Zonas Azuis (Blue Zones), expressão utilizada para identificar comunidades onde vivem concentrações excecionais de pessoas muito idosas.
Entre as mais conhecidas encontram-se Okinawa, no Japão; a região montanhosa da Sardenha, em Itália; a ilha de Icária, na Grécia; a Península de Nicoya, na Costa Rica; e a comunidade de Loma Linda, na Califórnia.
Embora cada uma tenha a sua cultura, tradições e alimentação, todas parecem partilhar algo surpreendente: não existe um único segredo para viver mais. Existe um modo de viver.
As pessoas caminham naturalmente todos os dias. Alimentam-se de forma simples e pouco processada. Mantêm uma forte ligação à família e à comunidade. Continuam a sentir-se úteis, mesmo depois da reforma. Têm um propósito que lhes dá vontade de acordar todas as manhãs. Dormem melhor, convivem mais, passam tempo na natureza e reservam momentos para descansar e recuperar do stress.
Talvez o mais curioso seja perceber que muitos destes hábitos não dependem de grandes recursos financeiros nem de tecnologias sofisticadas. São escolhas e formas de viver que, repetidas ao longo de décadas, parecem contribuir para uma vida mais longa e, sobretudo, mais saudável.
Naturalmente, a genética também desempenha um papel importante e nenhum destes hábitos garante que alguém venha a tornar-se centenário. No entanto, os estudos mostram de forma consistente que o estilo de vida influencia profundamente a forma como envelhecemos.
No Projeto Ser em Movimento acreditamos que a longevidade não deve ser encarada como uma corrida para acumular anos, mas como uma oportunidade para construir uma vida com equilíbrio, significado e bem-estar.
Porque, no fundo, todos desejamos chegar mais longe… mas gostaríamos que esse caminho fosse percorrido com energia, autonomia e alegria.
Este será apenas o primeiro de vários artigos dedicados a este fascinante tema. Nas próximas publicações iremos explorar, com maior detalhe, o que a ciência descobriu sobre as chamadas Zonas Azuis, quais os hábitos que caracterizam estas populações e, sobretudo, de que forma podemos adaptar esses ensinamentos à nossa realidade, sem fórmulas milagrosas, mas com pequenas mudanças consistentes que podem fazer uma grande diferença ao longo da vida.
Porque a verdadeira longevidade não se mede apenas pelos anos que vivemos.
Mede-se pela vida que conseguimos colocar em cada um desses anos.
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