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Abril, para mim, é um mês de profundidade. Um mês onde a vida me convida a parar, sentir e transformar.
É um tempo de memórias, algumas suaves, outras marcadas pela dor. Recordo a minha mãe, a sua, presença o seu aniversário a 22/abr… e a sua ausência a 2/abr. Recordo também a minha própria queda a 22/abr, a cirurgia a 25/abr e o corpo limitado durante tanto tempo. Momentos difíceis, sim, mas que hoje reconheço como capítulos de resiliência, onde aprendi a reconstruir-me, passo a passo.
Abril não apaga a dor, mas ensina-nos a dar-lhe significado.
Mas Abril é também memória coletiva. Essa memória precisa de ser dita... repetida... sentida... e não esquecida...
Antes da Revolução dos Cravos , Portugal era um país de silêncios.
Silêncios impostos. Silêncios vívidos.
Era um país onde a saude não era para todos.
Era um país com uma grande percentagem de analfabetos.
Era um país onde nascer determinava quase tudo.
Era um país em que muitas crianças não tinham possíbilidade de ser crianças.
Era um país onde o interior estava distante, não apenas em quilômetros, mas em oportunidades, em acessos, em dignidade.
Era um país de desigualdades acentuadas.
Entre homens e mulheres...
Entre cidade e campo...
Entre quem estudava e quem não tinha essa possibilidade...
Paradas pelo medo...
Paradas pela falta de oportunidades...
Paradas por falta de conhecimento e de literacia...
Paradas por um sistema que não permitia crescer.
Era um país em guerra no “ultramar”.
Uma guerra longa, dolorosa para Portugal e para os paises colonizados.
Uma guerra colonial de jovens enviados para combater e de famílias destruídas.
De mortes, tantas mortes, muitas delas evitáveis.
É preciso dizer
É preciso repetir
É preciso não esquecer
Abril é, por isso, ruptura...
Abril é, por isso, mudança profunda...
Abril é, por isso, um antes… e um depois...
Trouxe liberdade > sim.
Mas trouxe mais do que isso.
Trouxe a possibilidade de aprender e comunicar...
Trouxe a possibilidade de escolher...
Trouxe a possibilidade de viver sem medo...
E trouxe também independência a países como Angola , Moçambique , Cabo Verde , Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, se a ditadura continua-se viveriam ainda hoje colonizados... O 25 de Abril possibilitou a liberdade e independência, abriu-lhes novos caminhos, com novos desafios, mas também com a dignidade de decidir o próprio destino.
O 25 de Abril não foi perfeito, simplesmente porque as pessoas não são perfeitas...
E hoje?
Meninas que já nascem com mais voz, mais poder sobre si próprias...
Meninas com direitos iguais aos dos meninos...
Meninas que já podem sonhar mais alto...
Meninas que não devem... não podem perder o que se conquistou...
Mas essa esperança não é garantida, necessita de ser construida, defendida e cuidada todos os dias.
Porque os retrocessos existem.
Porque a história, infelizmente, já nos mostrou que pode acontecer.
E porque, muitas vezes, são as mulheres as primeiras a sentir.
Abril é dor
Abril é conquista
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