Ter sorte onde se nasce e o que fazemos com ela



Há algo de profundamente desconcertante na forma como a vida começa para cada um de nós. 

Não escolhemos o país, a família, as condições, a cultura. 

Não escolhemos se chegamos ao mundo num berço seguro ou numa realidade frágil, entre guerras ou num país em paz, rodeados de oportunidades ou limitados pela escassez. Ainda assim, é nesse ponto de partida, desigual, injusto e por vezes cruel, que se desenha tudo o que virá depois.

Este é um tema sensivel que pede silêncio, humildade e verdade.


Quando a sorte é nascer em paz

Há crianças que acordam com o som de despertadores. Outras, com o som de bombas.
Há quem tenha mochilas cheias de livros. E há quem tenha os braços carregados de medo.

Viver num país desenvolvido, onde existe escola pública, um sistema de saúde, água potável, proteção social, liberdade de expressão… é, por si só, um privilégio facilitador. Não significa ausência de problemas. Mas significa ponto de partida.

Quando começamos a vida num lugar onde direitos básicos são garantidos, recebemos algo valioso: tempo para pensar no futuro. Em muitos lugares do mundo, pensar no futuro é um luxo que não cabe na sobrevivência diária.


Quando o berço define probabilidades (e não destinos)

Nascer numa família com posses financeiras aumenta probabilidades: melhor educação, melhores cuidados, segurança, espaço para errar. Nascer na pobreza não define caráter nem valor, define circunstâncias. E circunstâncias moldam oportunidades.

Não é uma equação fechada.
Ricos podem falhar. Pobres podem vencer.
Mas é uma linha de partida que se desenha de forma desigual.

E nesta verdade cabe outra reflexão: ninguém é culpado de ter nascido com mais, mas todos somos responsáveis pelo que fazemos com o que temos.


Gratidão é também consciência

Valorizar o que se tem vai além de agradecer. É compreender o contexto.
É perceber que aprender, ter acesso à internet, poder ler este texto, ter comida e casa e ter tempo para sonhar, são conquistas invisíveis que muitos nunca conhecerão.

Se tens acesso à educação, estás no grupo dos que, à partida, podem crescer.
Se tens tempo para pensar sobre ti, estás no grupo dos que podem evoluir.
Se tens liberdade para escolher, estás no grupo dos que podem transformar.

Isso não anula dificuldades. Não invalida experiências e dores pessoais.
Mas amplia o olhar e lembra que a vida é feita de escaladas com inclinações diferentes.


O que fazemos com a sorte que tivemos

No Projeto Ser em Movimento, olhamos para estas realidades com responsabilidade e esperança.
A pergunta que fica é:

Como honras a vida que te foi dada?

  • Procuras aprender continuamente?

  • Crias a tua melhor versão com as condições que tens?

  • Respeitas quem começou a corrida mais atrás?

  • Ajudas quem está à tua volta a subir também?

  • Usas o teu privilégio, pequeno ou grande, como ferramenta de construção?

  • Ou desperdiças essas honras?

“Ter sorte onde se nasce” pode ser um privilégio.
Mas “fazer por merecer a vida que se tem” é uma escolha diária.


Em movimento: um convite

Se nasceste num lugar onde é possível aprender, sonhar e construir, então tens uma missão silenciosa: não desperdiçar essa oportunidade.

Se nasceste num lugar onde tudo parece mais difícil, então tens uma força silenciosa: a capacidade de criar novos caminhos, um milímetro de cada vez.

O mundo é injusto, desigual e surpreendentemente bonito.
E nós estamos nele para fazer a diferença.
Onde nascemos pode ter sido sorte ou azar.
Mas quem escolhemos ser a partir daqui, isso já é obra nossa.

Valorizemos e utilizemos os nossos privilégios.


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