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Era o último entardecer do ano e o céu parecia pintado por mãos mágicas: tons de laranja, rosa e dourado misturavam-se como se o universo estivesse a celebrar antecipadamente o que estava por vir.
No parque, sentado junto a uma velha árvore que já tinha visto muitos invernos e primaveras, estava um velhinho de sorriso fácil e olhos que brilhavam como quem guarda tesouros invisíveis. A seu lado, sentada na relva, estava uma criança com a energia vibrante de quem acredita que tudo é possível.
O vento suave brincava com os cabelos dela, e o velhinho soltava pequenas gargalhadas sempre que via o entusiasmo contagiante daquela alma pequenina.
- Sabes o que eu adoro nesta altura do ano? - perguntou ele, inclinando-se para a criança.
- O quê? - respondeu ela, com o corpo inteiro virado para a resposta, como se cada palavra fosse uma surpresa embrulhada.
- Adoro o barulho das coisas a começarem. Parece que o mundo inteiro faz “crack!” como um ovo a abrir… e dentro dele, há sempre algo novo a nascer.
A criança deu uma gargalhada leve.
- Um ovo gigante do ano novo??? Isso existe???
O velhinho acenou, piscando o olho.
- Existe no coração de cada pessoa. E tu tens um enorme. Aposto que aí dentro já está a nascer qualquer coisa cheia de luz.
Ela olhou para o peito como se tentasse ver através da camisola e riu com toda a alegria do mundo.
- E o que é que nasce aí no teu coração, avô?
Ele levou a mão ao peito, fez uma expressão exagerada de surpresa e disse:
- No meu? Ah… no meu nascem memórias bonitas e sonhos novos, mas mais devagar, porque a minha vida já está cheia de histórias. Mas ainda há espaço para mais, muito mais. A verdade é que cada ano novo me lembra que, enquanto estamos vivos, nunca paramos de crescer.
Um grupo de passarinhos pousou na árvore, como se também quisesse ouvir a conversa. A criança levantou-se num salto e estendeu as mãos para o céu.
- Eu quero que o meu novo ano seja cheio de aventuras!
- E será - disse o velhinho, levantando-se também, com a lentidão tranquila de quem já aprendeu a saborear os movimentos. - Mas sabes qual é o truque?
Ela inclinou a cabeça, curiosa.
- Tu escolhes as aventuras. Pequenas ou grandes, serenas ou malucas. Tu és quem escreve a história. Cada dia é uma página em branco e tu tens as cores todas.
A criança sorriu tão genuinamente que parecia iluminar o ar ao redor.
- Mas temos de fechar este ano primeiro, não é?
O velhinho fez um gesto teatral, como se estivesse a fechar um livro imaginário.
- Exatamente! E fechar um ano é como fechar um livro que adorámos: damos um abraço às coisas boas, agradecemos às menos boas, que também nos ensinaram e guardamos tudo numa prateleira especial da memória.
Depois, abriu os braços para o horizonte.
- E depois… abrimos outro livro novinho em folha. Com cheiro a futuro. Com páginas limpinhas. E com a magia de ainda não sabermos tudo o que vai acontecer.
A criança foi até à árvore e apanhou uma folha caída. Observou-a contra a luz dourada.
- Vamos deixar esta folha aqui como despedida do ano velho.
- Ótima ideia - disse o velhinho, tirando do bolso uma pedrinha colorida, redonda como uma pequena bolacha - e eu deixo esta pedra, como símbolo do que começa.
Juntos, colocaram os dois objetos no chão. Um símbolo do que termina. Outro do que nasce.
- Achas que o ano novo vai ser bonito? - perguntou ela.
O velhinho sorriu, aquele sorriso que abraça.
- Vai ser bonito porque tu vais estar nele. E porque estás sempre em movimento, a crescer, a aprender, a espalhar luz. O novo ano não precisa de ser perfeito. Só precisa de ser vivido com verdade e coração.
A criança correu e deu-lhe um abraço apertado. Ele retribuiu devagar, com aquela ternura que só os que já viveram muito conseguem dar.
O sol pôs-se finalmente, tingindo o mundo de ouro.
E naquele abraço simples, entre a inocência que começa e a sabedoria que acompanha, um ciclo fechou-se com alegria, e outro abriu-se cheio de promessa.
Talvez, ao leres esta história, sintas também esse “crack!” doce do início a nascer dentro de ti.
Talvez o novo ano esteja prestes a abrir os braços e a dizer-te:
✨✨✨ “Vem. O mundo espera o teu movimento.” ✨✨✨
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