Presente do Pai Natal



Era quase meia-noite na véspera de Natal. A neve caía devagar, como se cada floco quisesse sussurrar um segredo ao mundo. Lá no alto, muito acima das nuvens iluminadas pela lua, o Pai Natal observava a terra com um brilho terno nos olhos. Não era apenas a noite das prendas, era a noite em que os corações se lembravam de quem realmente eram: pequenos faróis de luz, capazes de aquecer até o inverno mais frio.

As renas alinhavam-se junto ao trenó, cada uma com a sua personalidade cintilante. 

  • A Rena Aurora, que acreditava que todos os sonhos merecem nascer. 
  • O Cometa, que corria mais rápido quando ouvia uma gargalhada verdadeira. 
  • A Dália, que tinha o dom de sentir quando alguém precisava de esperança. 
  • E tantas outras, cada uma carregando no peito a energia de um mundo que se quer mais humano, mais atento, mais vivo.

— Este ano, vamos fazer algo diferente — murmurou o Pai Natal, enquanto passava a mão pela barba que parecia guardar histórias de mil invernos. — Não vamos entregar apenas presentes… vamos despertar movimentos.

As renas trocaram olhares curiosos.

— Movimentos? — perguntou Aurora, inclinando a cabeça.

— Sim — respondeu ele, com a doçura de quem sabe o poder do simples. — Movimentos que lembrem as pessoas de que crescer, cuidar e transformar é a melhor prenda que podem dar a si mesmas e ao mundo. Movimentos que as ajudem a tornar-se quem sentem que nasceram para ser.

O trenó ergueu-se num sopro de luz e silêncio. Ao longo da noite, passaram por janelas iluminadas, casas cheias de risos, outras cheias de ausências, outras ainda cheias de sonhos escondidos por trás de cortinas fechadas. E em cada parapeito, em cada sapatinho deixado com esperança, o Pai Natal colocava um pequeno cartão dourado. Não dizia o nome de ninguém. Não trazia anúncios de sonhos prontos. Apenas uma frase simples:

“Que este Natal te encontres em movimento, rumo à tua melhor versão, com amor, coragem e verdade.”

Ao lado do cartão, uma pequenina estrela de madeira. Quem a tocava sentia algo despertar… às vezes era uma vontade antiga, às vezes era a coragem que faltava, outras vezes um perdão guardado há demasiado tempo. Cada estrela era uma semente, invisível por fora, transformadora por dentro.

Quando o sol começou a nascer, o trenó regressou ao Polo Norte. As renas pousaram suavemente, ainda sentindo no peito a vibração da jornada.

— Achas que eles vão perceber? — perguntou Dália, sempre sensível aos silêncios humanos.

O Pai Natal sorriu, fechando os olhos como quem escuta o mundo a respirar.

— Perceberão no tempo deles. O movimento começa devagar… como a neve que cai, leve e quase imperceptível… até um dia em que tudo ao redor se torna paisagem nova.

E assim, naquele Natal, algo mudou. Não se ouvia, não se via, mas sentia-se. Nas pequenas decisões. Nos passos tímidos. Nos abraços que voltavam. Nos sonhos que deixavam de esperar “um dia”.

O espírito do Ser em Movimento tinha entrado pelas chaminés, pelas janelas, pelos corações.

Talvez, se ouvires bem esta noite…
Talvez, se te deixares tocar pela esperança…
Consigas ouvir o tilintar suave das renas a passar ao longe.

E quem sabe, quando fores calçar os teus sapatos amanhã, encontres também uma pequena estrela à tua espera, pronta para te lembrar que a viagem mais bonita é sempre a que começa dentro de ti. 

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