Entre a abundância e a escassez, um convite à consciência



Vivemos num mundo de contrastes profundos. 

Em muitas partes do mundo, abrir uma torneira e ver correr água é algo tão comum que já não causa espanto. Carregamos num interruptor e há luz. Giramos um botão e a casa aquece. Entramos num supermercado e encontramos alimentos de todas as estações, vindos dos quatro cantos do mundo.

Mas nem todos vivem assim e nem mesmo a Europa está imune a perder o que julgava garantido. A guerra na Ucrânia veio lembrar-nos disso. Milhares de pessoas, num instante, ficaram sem casa, sem água, sem luz, sem aquecimento. De um dia para o outro, o conforto transformou-se em frio, o lar em ruína, e a segurança em incerteza.

É um lembrete doloroso de que nada é permanente. Aquilo que hoje tomamos como certo, o teto que nos abriga, o calor que sentimos, a comida que chega à mesa, pode desaparecer. E, ao mesmo tempo, é um apelo à empatia. Porque enquanto muitos enfrentam o caos e a perda, outros continuam a viver envoltos numa aparente normalidade, sem imaginar o valor real das pequenas coisas.

Em África, por exemplo, há comunidades inteiras que vivem sem acesso a água potável ou eletricidade e em alguns casos com fome e doenças, enfrentando a escassez com uma coragem silenciosa e uma capacidade de partilha que comove. E, ainda assim, há esperança, há alegria.

Este texto não é sobre pena, mas sobre consciência. Sobre o reconhecimento de que o mundo não avança todo ao mesmo ritmo e de que isso exige de nós respeito pelos que ainda não estão ao mesmo nivel de evolução e, por outro lado, humildade e gratidão por tudo o que foi conquistado e dado como garantido.

Talvez o verdadeiro progresso não seja apenas tecnológico ou económico, mas também humano: quando somos capazes de apreciar o que temos, sem nos esquecermos de quem tem menos; quando o conforto não nos adormece, mas nos desperta para a responsabilidade de cuidar, uns dos outros, e do planeta que partilhamos.

Em muitos casos cuidar uns dos outros é algo bem simples que cada um pode fazer, implica dar o exemplo e não dar o peixe mas ensinar a pescar. 

A vida é frágil. A segurança é relativa. A liberdade é muitas vezes uma confusão de ideias. Mas a consciência e a compaixão podem ser sólidas. Que saibamos, então, continuar a evoluir, não apenas no que temos, mas no que somos. Porque o maior luxo de todos é saber ser e poder viver com gratidão, lucidez e coração desperto.

Ser a melhor versão implica ser consciente.

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